terça-feira, 7 de abril de 2026

Em defesa do regresso do pedagogo do exílio, para onde foi mandado por certos “cientista da educação” *

O pedagogo sabe que existe sempre uma distância, quando não um abismo, entre o que se diz e o que se faz, mas não se resigna a isso, estando sempre em busca de coerência.

Foi o meu colega Jean Houssaye quem desenvolveu, com maior precisão, esta concepção do pedagogo. Para ele, tal como para mim, embora Rousseau seja constantemente invocado pelos pedagogos, ele não é, de forma alguma, um pedagogo. O Émile é uma ficção filosófica muito interessante e cuja leitura é estimulante, e uma espécie de utopia de referência… mas não é, de forma alguma, um texto pedagógico: a acção decorre num mundo imaginário, com uma criança órfã – para não ter de se preocupar com a influência e as imposições dos pais –, sem a menor preocupação material nem a menor restrição social ou institucional. E Rousseau não tentou pôr em prática as suas teorias com os seus filhos – que abandonou, sem dúvida, devido à sua vida de perseguido – nem criar a menor instituição educativa. Tudo o contrário de Pestalozzi, que quis, por sua vez, «dar uma mão a Rousseau» e se empenhou numa infinidade de experiências educativas onde pôde experimentar, de forma muito concreta, as dificuldades da empreitada: ainda muito jovem, acolhe na sua quinta de Neuhof adolescentes que tenta reintegrar através dos trabalhos agrícolas… estes roubam-no e aterrorizam a vizinhança. Ficou arruinado, foi ridicularizado, mas não se desesperou. Pelo contrário, começou a reflectir, a ler e a escrever, a consultar aqueles que o podiam aconselhar. E voltou ao trabalho, até fundar o famoso instituto de Yverdon, que seria um enorme sucesso, reconhecido e elogiado em toda a Europa. E o que temos a aprender com Pestalozzi não é tanto o seu «método» – que ele próprio dizia que deveria ser ultrapassado – mas sim a forma como enfrentou as dificuldades que encontrou, a maneira como construiu as suas propostas, as adaptou, trabalhou e retrabalhou… para alcançar cada vez mais rigor na busca daquilo que considerava o objectivo último da educação: «enobrecer o humano».

Por fim, o pedagogo é, à semelhança de Pestalozzi, alguém que se encontra na junção entre a teoria e a prática. Inventa incessantemente novas propostas para incorporar a sua teoria nas suas práticas. E questiona incessantemente as suas práticas para verificar se estas lhe permitem aproximar-se da sua teoria. «Percorre incessantemente nos dois sentidos, como diz Daniel Hameline, a cadeia que vai dos objetivos às modalidades.» Convencido de que é ao tentar reduzir a distância entre uns e outros que avança, mas consciente de que essa distância permanecerá sempre, tanto é constitutiva da empreitada educativa.

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* Excerto do original "Qu'est-ce que la pédagogie", in Philippe Meirieu et Xavier Bouchereau, Parce que nous croyons encore en l'éducation, Érès Editions, 2026 (Tradução de Daniel Lousada).

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Sem conhecimento não há pedagogia

A pedagogia está mais presente nas crianças pequenas e vai diminuindo com o avanço das idades.  Enquanto a atenção está centrada nos alunos, a pedagogia prevalece; quando se dirige para o conhecimento, desaparece. Estranha realidade.  

A preocupação principal da pedagogia tem de ser com o conhecimento e com a forma como este é apropriado pelos alunos.

Recordo os três vértices do triângulo pedagógico popularizado por Jean Houssaye: conhecimento — professor — alunos. Há sempre um dos vértices que ocupa o «lugar do morto». Assim: na lógica aprender, há uma relação prioritária entre o conhecimento e os alunos com o professor no «lugar do morto»; na lógica ensinar, esta relação é sobretudo entre o professor e o conhecimento, com os alunos numa atitude mais passiva; na lógica formar, a relação estabelece-se primordialmente entre o professor e os alunos, com uma presença menor do conhecimento.

Já escrevi , em diversas ocasiões, sobre este triângulo e os seus prolongamentos. Agora, interessa-me sublinhar que a pedagogia só existe quando é capaz de juntar estes três vértices. Não é, apenas, uma relação entre professor e alunos. Sem conhecimento não há pedagogia.


António Nóvoa, excerto de "A colaboração é o normal", in «Viagem. Por escolas de Portugal», Porto Editora, 2026, pp. 19-23

quinta-feira, 19 de março de 2026

O Digital na Humanidade * — excertos

A extraordinária evolução tecnológica das últimas décadas foi mais rápida do que a nossa capacidade de adaptação e compreensão. Estamos desfasados. Impreparados. Não sabemos como agir, nem sequer o que pensar. Os professores sentem-se incompetentes, (…) com um baixo nível de proficiência em competência digital.

(…)

O recurso a plataformas digitais, em substituição do trabalho dos professores, está a conduzir a pedagogia por caminhos errados e perigosos. (…) Muitas plataformas estão desenhadas para uma relação directa com os alunos, sem a mediação dos professores. É um erro.

(…)

Sempre que se fala do «futuro da educação», o tema do digital faz-se omnipresente. Como se a questão fosse tecnológica e não pedagógica. Transcrevo, adaptando e resumindo, um diálogo extraordinário entre Michel Serres e Bernard Stiegler: 

— M. Serres: As novas tecnologias não mudam apenas o estado do saber, mas também o sujeito do saber. Com a exteriorização do saber nos computadores, tudo se passa como se a nossa cabeça tivesse ido parar às máquinas.

— B. Stiegler: O ser humano realiza-se exteriorizando-se através das técnicas, como a escrita. O digital é uma nova forma de escrita, de «gramatização».

— M. Serres: A cada revolução pensamos perder tudo. Mas, na realidade, descobrimos novas capacidades. Foi assim com a invenção da escrita, da imprensa e do digital. Não ficamos com o cérebro vazio, mas com o cérebro livre.

— B. Stiegler: Não é a técnica que é tóxica em si. É a nossa capacidade para a socializarmos corretamente [1].

Na mesma linha, António Dias de Figueiredo afirma (…) que «a essência do digital, se quisermos encarar a educação na perspectiva da transformação digital é, acima de tudo, organizacional, cultural e pedagógica» [2]. 

(…)

Precisamos de pensar o digital como um instrumento de estudo, de relação e de trabalho entre alunos e entre alunos e professores, capaz de fomentar a pesquisa, a realização de projectos e a resolução de problemas.

(…)

A pedagogia não se pode limitar ao virtual, tem de fazer-se no real. Pedagogia humanista, da pergunta, da procura, do encontro. Pedagogia do assombro, da conversa, da criação. Pedagogia do ócio: perder tempo para o ganhar. Pedagogia enraizada nas realidades humanas. O digital é útil como instrumento de colaboração e de trabalho conjunto. É certamente um elemento importante de transformação, mas não tem nem deve ter nunca o monopólio sobre o futuro da educação. 

(…)

Não podemos ficar indiferentes perante a comercialização e o poder da indústria global da educação: «O futuro depende de quem controla os meios de produção cultural e educacional» [3].

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* in Viagem. Por escolas de Portugal, Porto Editora, 2026, pp.171-176

[1] Conversa publicada no dia 22 de Agosto de 2022 em Philosophie Magazine.

[2] Que futuro para a educação pós-pandemia, in Estado da educação, 2020, Lisboa, conselho nacional de educação, 2021, pp. 253-254.

[3] Leonardo Garnier, «Reflections on the United Nations Transforming EducationnSummit», Prospects, vol. 55, 2025, pp. 309-316.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Adolescência e IA Generativa

ESTA VERSÃO EM PORTUGUÊS RESULTOU DO TRABALHO
 DE TEXTO SOBRE A TRADUÇÃO DO ORIGINAL EM
INGLÊS PRODUZIDA PELO TRADUTOR IA DEEPL
Como os Chatbots moldam mentes jovens e como recuperar o controlo

Os sistemas a que chamamos IA generativa (GenAI) não são ferramentas neutras que simplesmente respondem a perguntas. São construídos com base em conjuntos de dados gigantescos e processos de optimização complexos que aprendem a prever palavras, imagens ou sons, enquanto tentam manter os utilizadores envolvidos e satisfeitos. Tal como os algoritmos de recomendação nas redes sociais, são optimizados para amplificar a interacção e a utilidade percebida, muitas vezes sem uma compreensão profunda dos efeitos colaterais psicológicos indesejados, especialmente para os adolescentes. LER MAIS >>>