segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Escutar a palavra, desenhar o texto: Desenhar o texto, escutar a palavra

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John Berger, ao referir-se à obra do poeta árabe Abdulkareem Kasid, que andava a reler, comenta: «Acho a sua voz profundamente expressiva»[i].

Que voz é esta que John Berger tanto aprecia? Só pode ser a voz que descobriu, na sua própria voz, ao emprestá-la aos poemas do poeta Kasid que lhe foi dado ler. E é, precisamente, a descoberta desta voz, que esperamos proporcionar ao escrevente aprendiz, desejavelmente a partir dos seus primeiros contactos com a escrita, naquela fase, mesmo, em que a escrita ainda não é escrita, mas desenho da fala. Por isso gostamos de pensar o acto de escrever como acto de desenhar; desenhar “quadros” com palavras, que revelam imagens ao ouvido, num processo em que a voz assume um papel fundamental! Se no desenho são representações de objectos ou de conceitos, em imagens, que arrumamos num espaço, em formas e cores que nos apelam ao olhar, na escrita é a sua representação em palavras que alinhamos numa página na forma que melhor se dá à escuta.

Daqui decorre a tese que exploramos neste livro sobre a qual procuramos construir uma prática: que o prazer do texto, que nos entra olhos adentro, se desenvolve, em grande parte, no contacto com a voz que ele traz consigo e que somos chamados a evocar. Deste contacto, não raras vezes, tocados pela forma como nos chegam ao ouvido, retemos expressões, versos, poemas que, ao reter, fazemos um pouco nossos também: pela voz do outro, que aprendemos (porque nos ensinaram) a ouvir com a nossa voz no que lemos, aprendemos a “desenhar a fala” que dá forma ao que escrevemos.

No capítulo 1, defendemos, então, que não há leitura sem voz; que mesmo na leitura silenciosa a voz de quem lê o texto está presente; que a leitura é um convite a ouvir o texto, através da voz que o leitor lhe empresta. E que grande parte do prazer que o texto oferece, desenvolve-se no decurso deste processo.

No capítulo 2, debruçamo-nos sobre as formas que a fala pode tomar quando escrita — formas estas que, desenhadas pela mão que as escreve, são moldadas pelo ouvido. E defendemos que, no processo do ensino da escrita, é fundamental treinar o ouvido do escrevente aprendiz a escutar as “formas desenhadas” pela voz de quem as sabe desenhar melhor do que ele. Ao saber escutar a voz presente nos textos que lê, saberá também escutar a sua própria voz no que escreve, certificando-se que o seu texto tem o “desenho da voz” que deseja. Para isso, avançamos com propostas de trabalho de texto sobre textos de autor, de poemas, principalmente, porque têm o “desenho” que mais nos pede a escuta.

No capítulo 3, defendemos a tese de que a escrita precisa desviar-se da sua função utilitária imediata, para ser vivida como um fim em si mesmo. Assumimos, então, a ambição de construir uma prática que aposta na dimensão intransitiva da escrita[ii], e que, escrevendo na escola ou fora dela, as crianças nunca sintam que estão a escrever para a escola.

No capítulo 4, apresentamos uma prática, no âmbito dos apoios educativos, que dá conta de um exemplo de leitura, que alguns autores chamam de "pré-leitura", totalmente determinada pelo contexto. Embora menos visível, a tese de que a escrita mexe na fala, defendida nos capítulos anteriores, mantém-se presente. Por isso o trabalho sobre o escrito — registado pelo[a] professor[a] — da fala de uma criança que sente dificuldade em organizar-se no que diz, ser tão importante, para o desenvolvimento da sua expressão verbal.

No capítulo 5, percorremos, em jeito de conclusão, alguns dos fundamentos em que se apoia a nossa prática pedagógica. E, de passagem, damos conta dos desafios que a "revolução digital" nos coloca.

No capítulo 6 — textos complementares — completam-se informações e desenvolvem-se conceitos esboçados ao longo do livro

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[i] Berger, John. Idem: p.11 e 67

[ii] Pierre Clanché desloca o centro da reflexão sobre as funções da escrita para o seu modo de existência. É um dos autores que mais claramente distingue uma escrita concebida como instrumento de comunicação de uma escrita entendida como actividade humana fundamental. Na perspectiva de Clanché, a escrita não nasce apenas da necessidade de comunicar. Ela constitui uma actividade simbólica autónoma, na qual o sujeito se constrói ao mesmo tempo que constrói o texto. Por isso, a escrita não pode ser reduzida a um conjunto de competências técnicas nem às suas funções sociais. A dimensão intransitiva da escrita encontra em Clanché pelo menos cinco ideias importantes: 1- Escrever é produzir pensamento. O texto não é a simples transcrição de uma ideia previamente formada. O próprio processo de escrever reorganiza o pensamento e faz surgir relações que não existiam antes. 2- A escrita tem um valor intrínseco. O acto de escrever vale por si mesmo, independentemente da utilidade imediata do texto. Tal como desenhar, compor música ou brincar, escrever pode constituir uma actividade cuja finalidade está na própria realização. 3- A aprendizagem da escrita deve respeitar essa natureza. Se a escola reduz a escrita à produção de textos úteis, avaliáveis ou comunicativos, empobrece aquilo que a escrita verdadeiramente é. A criança deve poder experimentar a linguagem, explorar formas, sons, ritmos e significados sem estar sempre subordinada a um destinatário ou a um objectivo funcional. 4- O sujeito escreve-se a si próprio. A escrita transforma quem escreve. Não é apenas um meio de expressão de uma identidade já constituída; participa na própria constituição dessa identidade. 5- A escrita aproxima-se da criação artística. Mesmo quando não produz literatura, todo o acto de escrever contém uma dimensão inventiva. Escrever é sempre inventar uma forma para o pensamento. Então, interroga-se Clanché: como ensinar a escrever sem destruir esta dimensão criadora da escrita? Este é, provavelmente, o ponto em que ele se afasta de uma leitura mais funcional de Freinet. Embora Freinet tenha valorizado a expressão livre, continuou muitas vezes a justificar a escrita pelas suas funções sociais — comunicar, imprimir o jornal escolar, corresponder, informar. Clanché procura ir além disso: a escrita não precisa de uma finalidade externa para se legitimar. O próprio acto de escrever já constitui uma experiência de conhecimento e de criação. Neste sentido, a escola não deve apenas ensinar para que serve a escrita, mas também preservar aquilo que faz da escrita uma actividade humana insubstituível (No capítulo 3 exploramos esta dimensão da escrita).

sábado, 25 de julho de 2026

DOCÊNCIA, LIBERDADE E MODERNIZAÇÃO: Novos desafios da pedagogia universitária no século XXI à luz de Freinet, a IA e a importância da reflexão

In AA. W., IA e criatividade: Impactos, possibilidades e limites no universo artístico, educacional e tecnológico, Mundis - Associação cívica de formação e cultura, 2026: pp. 31-35.

Docência, liberdade e modernização não são incompatíveis, mas exigem um equilíbrio delicado. Inspirar-se em Freinet é resgatar a dimensão humanista de educação, repensando a Universidade como um espaço de criação, liberdade e emancipação.

domingo, 5 de julho de 2026

“Cabeça no ar”: ensinar a devanear com Manuel António Pina

Cabeça no ar, sem ifen, não é a mesma coisa que cabeça-no-ar. Cabeça-no-ar é alguém que vive permanentemente distraído. E estar permanentemente distraído, seja como ou onde for, não é coisa boa. Mas estar de vez em quando (quer dizer, de cabeça no ar) pode ser divertido (distrair é divertir, diz o dicionário). É de cabeça no ar, portanto, que fala o poema — «As coisas melhores são feitas no ar», revela Manuel António Pina. E dá alguns exemplos: devanear, fazer castelos no ar…

Hoje não sei se os jovens terão o ambiente propício a devaneios ou mesmo para entenderem e cultivarem, por si sós, a arte de devanear, fundamental ao desenvolvimento da imaginação! Quando sozinhos, numa situação em que poderiam estar simplesmente a olhar para o ar, sem fazer coisa alguma (a devanear) os dispositivos tecnológicos, que trazem “colados” ao corpo, falam mais alto: parecem pô-los em “stand by”, em estado de prontidão, face às solicitações das redes a que se encontram amarrados. Mesmo os adultos deixaram de se dar tempo a devaneios. Quantos de nós, quando à espera de um amigo, à mesa da esplanada onde ficamos de nos encontrar, conseguimos aguentar a espera sem pegar no smartfone, que trazemos sempre no bolso e que, ao sentarmo-nos, pousamos na mesa, na expectativa sabe-se lá de quê? Ontem, quando não fazíamos nada, devaneávamos. Mas, hoje, até com os adultos, a ligação às redes tende a tomar o lugar do devaneio. É caso para dizer: reaprender e “ensinar” a devanear, precisa-se!

Vídeo-poema disponível >>>
Então, a proposta é pegar nestes exemplos, que Manuel António Pina nos dá, num poema, e ensinar a devanear em jogos de palavras, que possam sugerir voo, sonho, castelos no ar, começando por listar palavras para usar como motor dos devaneios a escrever.

Claro que escrever não é devaneio! Mas é, certamente, um instrumento que nos pode levar até ele. Então, de caneta na mão, depois de experimentar ler o poema como quem anda nas nuvens (quer dizer, devaneia), escrevemos o que o devaneio nos ditar — outro poema, talvez, que, como qualquer poema, nos convida a devanear —. E depois partilhar no blog da turma (ou nas “redes”, se for esse o desejo do autor) o produto do devaneio. Mas, se a partilha for nas “redes”, só com o apoio de quem ajudou a dar forma ao “castelo feito no ar”, e não deixa que as reações negativas que magoam, ou a ausência de “likes”, venham pôr de rasto auto-estimas, que impedem devaneios futuros. Porque os “likes” que importam vêm daqueles que estão próximos e, olhos nos olhos, nos acompanham nos nossos devaneios.

In Lousada, D., e outros. Escutar a palavra desenhar o texto. Desenhar o texto escutar a palavra, Ágora Gaia, 2026 — versão E-book


 


quarta-feira, 8 de abril de 2026

«A pedagogia é um desporto de combate»

Apesar de alguns momentos de acalmia mediática em que os seus adversários parecem perder um pouco de fôlego, os pedagogos vivem sempre com a sensação de estar «na linha da frente». E, de facto, estão-no constantemente. Estão-no, acima de tudo, porque têm de recordar incessantemente – e, em primeiro lugar, a si próprios – que ninguém está destinado ao fracasso nem condenado à exclusão, que todos podem aprender e crescer, que a transmissão da cultura não pode ter como objectivo seleccionar as elites, mas deve permitir a todos aceder ao prazer de pensar e ao poder de agir. Contra todas as formas de fatalismo e de renúncia, contra a obsessão classificatória das nossas sociedades, contra o encerramento  sistemático dos indivíduos em «grelhas» por instituições que se contentam em «gerir fluxos», eles são portadores de uma «insurreição fundadora» que os coloca sempre, mais ou menos, em posição de combate contra as práticas burocráticas e rotineiras de quem aposta na manutenção do status quo. LER MAIS >>>