Hoje não sei se os jovens terão o ambiente propício a devaneios ou mesmo para entenderem e cultivarem, por si sós, o devaneio, fundamental ao desenvolvimento da arte de imaginar! Quando sozinhos, numa situação em que poderiam estar simplesmente a olhar para o ar, sem fazer coisa alguma (a devanear) os dispositivos tecnológicos, que trazem “colados” ao corpo, falam mais alto: parecem pô-los em stand by, em estado de prontidão, face às solicitações das redes a que se encontram amarrados. Mesmo os adultos deixaram de se dar tempo a devaneios. Quantos de nós, quando à espera de um amigo, à mesa da esplanada onde ficamos de nos encontrar, conseguimos aguentar a espera sem pegar no smartfone, que trazemos sempre no bolso e que, ao sentarmo-nos, pousamos na mesa, na expectativa sabe-se lá de quê? Ontem, mesmo não fazendo nada, alguma coisa fazíamos, quer dizer, devaneávamos. Mas, hoje, até com os adultos, a ligação às redes, tende a tomar o lugar do devaneio. É caso para dizer: reaprender o devaneio, enquanto “ensinamos” a devanear, precisa-se!
Então, a proposta é pegar nestes exemplos, que Manuel António Pina nos dá, e ensinar a devanear em jogos de palavras, que possam sugerir voo, sonho, castelos no ar, ou seja, listar palavras para usar nos nossos devaneios de escrita.
Claro que escrever não é devaneio! Mas é, certamente, um instrumento que nos pode levar até ele. Então, de caneta na mão, depois de experimentar ler o poema como quem anda nas nuvens (quer dizer, devaneia), escrevemos o que o devaneio nos ditar. Porque, parece-nos, diferentemente do que parece ter acontecido no passado, até para devanear faz falta sentir as mãos ocupadas.
In Lousada, D., e outros. Escutar a palavra desenhar o texto. Desenhar o texto escutar a palavra, Ágora Gaia, 2026 — versão E-book


