quinta-feira, 2 de abril de 2026

Sem conhecimento não há pedagogia

A pedagogia está mais presente nas crianças pequenas e vai diminuindo com o avanço das idades.  Enquanto a atenção está centrada nos alunos, a pedagogia prevalece; quando se dirige para o conhecimento, desaparece. Estranha realidade.  

A preocupação principal da pedagogia tem de ser com o conhecimento e com a forma como este é apropriado pelos alunos.

Recordo os três vértices do triângulo pedagógico popularizado por Jean Houssaye: conhecimento — professor — alunos. Há sempre um dos vértices que ocupa o «lugar do morto». Assim: na lógica aprender, há uma relação prioritária entre o conhecimento e os alunos com o professor no «lugar do morto»; na lógica ensinar, esta relação é sobretudo entre o professor e o conhecimento, com os alunos numa atitude mais passiva; na lógica formar, a relação estabelece-se primordialmente entre o professor e os alunos, com uma presença menor do conhecimento.

Já escrevi , em diversas ocasiões, sobre este triângulo e os seus prolongamentos. Agora, interessa-me sublinhar que a pedagogia só existe quando é capaz de juntar estes três vértices. Não é, apenas, uma relação entre professor e alunos. Sem conhecimento não há pedagogia.


António Nóvoa, excerto de "A colaboração é o normal", in «Viagem. Por escolas de Portugal», Porto Editora, 2026, pp. 19-23

quinta-feira, 19 de março de 2026

O Digital na Humanidade * — excertos

A extraordinária evolução tecnológica das últimas décadas foi mais rápida do que a nossa capacidade de adaptação e compreensão. Estamos desfasados. Impreparados. Não sabemos como agir, nem sequer o que pensar. Os professores sentem-se incompetentes, (…) com um baixo nível de proficiência em competência digital.

(…)

O recurso a plataformas digitais, em substituição do trabalho dos professores, está a conduzir a pedagogia por caminhos errados e perigosos. (…) Muitas plataformas estão desenhadas para uma relação directa com os alunos, sem a mediação dos professores. É um erro.

(…)

Sempre que se fala do «futuro da educação», o tema do digital faz-se omnipresente. Como se a questão fosse tecnológica e não pedagógica. Transcrevo, adaptando e resumindo, um diálogo extraordinário entre Michel Serres e Bernard Stiegler: 

— M. Serres: As novas tecnologias não mudam apenas o estado do saber, mas também o sujeito do saber. Com a exteriorização do saber nos computadores, tudo se passa como se a nossa cabeça tivesse ido parar às máquinas.

— B. Stiegler: O ser humano realiza-se exteriorizando-se através das técnicas, como a escrita. O digital é uma nova forma de escrita, de «gramatização».

— M. Serres: A cada revolução pensamos perder tudo. Mas, na realidade, descobrimos novas capacidades. Foi assim com a invenção da escrita, da imprensa e do digital. Não ficamos com o cérebro vazio, mas com o cérebro livre.

— B. Stiegler: Não é a técnica que é tóxica em si. É a nossa capacidade para a socializarmos corretamente [1].

Na mesma linha, António Dias de Figueiredo afirma (…) que «a essência do digital, se quisermos encarar a educação na perspectiva da transformação digital é, acima de tudo, organizacional, cultural e pedagógica» [2]. 

(…)

Precisamos de pensar o digital como um instrumento de estudo, de relação e de trabalho entre alunos e entre alunos e professores, capaz de fomentar a pesquisa, a realização de projectos e a resolução de problemas.

(…)

A pedagogia não se pode limitar ao virtual, tem de fazer-se no real. Pedagogia humanista, da pergunta, da procura, do encontro. Pedagogia do assombro, da conversa, da criação. Pedagogia do ócio: perder tempo para o ganhar. Pedagogia enraizada nas realidades humanas. O digital é útil como instrumento de colaboração e de trabalho conjunto. É certamente um elemento importante de transformação, mas não tem nem deve ter nunca o monopólio sobre o futuro da educação. 

(…)

Não podemos ficar indiferentes perante a comercialização e o poder da indústria global da educação: «O futuro depende de quem controla os meios de produção cultural e educacional» [3].

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* in Viagem. Por escolas de Portugal, Porto Editora, 2026, pp.171-176

[1] Conversa publicada no dia 22 de Agosto de 2022 em Philosophie Magazine.

[2] Que futuro para a educação pós-pandemia, in Estado da educação, 2020, Lisboa, conselho nacional de educação, 2021, pp. 253-254.

[3] Leonardo Garnier, «Reflections on the United Nations Transforming EducationnSummit», Prospects, vol. 55, 2025, pp. 309-316.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Adolescência e IA Generativa

ESTA VERSÃO EM PORTUGUÊS RESULTOU DO TRABALHO
 DE TEXTO SOBRE A TRADUÇÃO DO ORIGINAL EM
INGLÊS PRODUZIDA PELO TRADUTOR IA DEEPL
Como os Chatbots moldam mentes jovens e como recuperar o controlo

Os sistemas a que chamamos IA generativa (GenAI) não são ferramentas neutras que simplesmente respondem a perguntas. São construídos com base em conjuntos de dados gigantescos e processos de optimização complexos que aprendem a prever palavras, imagens ou sons, enquanto tentam manter os utilizadores envolvidos e satisfeitos. Tal como os algoritmos de recomendação nas redes sociais, são optimizados para amplificar a interacção e a utilidade percebida, muitas vezes sem uma compreensão profunda dos efeitos colaterais psicológicos indesejados, especialmente para os adolescentes. LER MAIS >>>

segunda-feira, 2 de março de 2026

Neutralidade

O que não conheço não me afecta. E o que passa ao largo só conheço se me obrigar ao incómodo de percorrer a distância que me separa dele.


A neutralidade é isto: manter entre nós e o “outro” uma distância que não incomode — “Longe da vista, longe do coração", diz o ditado popular.

E assim muitos de nós se vão posicionando face às atrocidades que se passam no mundo


DL

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Ilustração original disponível em >>>