quinta-feira, 19 de março de 2026

O Digital na Humanidade * — excertos

A extraordinária evolução tecnológica das últimas décadas foi mais rápida do que a nossa capacidade de adaptação e compreensão. Estamos desfasados. Impreparados. Não sabemos como agir, nem sequer o que pensar. Os professores sentem-se incompetentes, (…) com um baixo nível de proficiência em competência digital.

(…)

O recurso a plataformas digitais, em substituição do trabalho dos professores, está a conduzir a pedagogia por caminhos errados e perigosos. (…) Muitas plataformas estão desenhadas para uma relação directa com os alunos, sem a mediação dos professores. É um erro.

(…)

Sempre que se fala do «futuro da educação», o tema do digital faz-se omnipresente. Como se a questão fosse tecnológica e não pedagógica. Transcrevo, adaptando e resumindo, um diálogo extraordinário entre Michel Serres e Bernard Stiegler: 

— M. Serres: As novas tecnologias não mudam apenas o estado do saber, mas também o sujeito do saber. Com a exteriorização do saber nos computadores, tudo se passa como se a nossa cabeça tivesse ido parar às máquinas.

— B. Stiegler: O ser humano realiza-se exteriorizando-se através das técnicas, como a escrita. O digital é uma nova forma de escrita, de «gramatização».

— M. Serres: A cada revolução pensamos perder tudo. Mas, na realidade, descobrimos novas capacidades. Foi assim com a invenção da escrita, da imprensa e do digital. Não ficamos com o cérebro vazio, mas com o cérebro livre.

— B. Stiegler: Não é a técnica que é tóxica em si. É a nossa capacidade para a socializarmos corretamente [1].

Na mesma linha, António Dias de Figueiredo afirma (…) que «a essência do digital, se quisermos encarar a educação na perspectiva da transformação digital é, acima de tudo, organizacional, cultural e pedagógica» [2]. 

(…)

Precisamos de pensar o digital como um instrumento de estudo, de relação e de trabalho entre alunos e entre alunos e professores, capaz de fomentar a pesquisa, a realização de projectos e a resolução de problemas.

(…)

A pedagogia não se pode limitar ao virtual, tem de fazer-se no real. Pedagogia humanista, da pergunta, da procura, do encontro. Pedagogia do assombro, da conversa, da criação. Pedagogia do ócio: perder tempo para o ganhar. Pedagogia enraizada nas realidades humanas. O digital é útil como instrumento de colaboração e de trabalho conjunto. É certamente um elemento importante de transformação, mas não tem nem deve ter nunca o monopólio sobre o futuro da educação. 

(…)

Não podemos ficar indiferentes perante a comercialização e o poder da indústria global da educação: «O futuro depende de quem controla os meios de produção cultural e educacional» [3].

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* in Viagem. Por escolas de Portugal, Porto Editora, 2026, pp.171-176

[1] Conversa publicada no dia 22 de Agosto de 2022 em Philosophie Magazine.

[2] Que futuro para a educação pós-pandemia, in Estado da educação, 2020, Lisboa, conselho nacional de educação, 2021, pp. 253-254.

[3] Leonardo Garnier, «Reflections on the United Nations Transforming EducationnSummit», Prospects, vol. 55, 2025, pp. 309-316.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Adolescência e IA Generativa

ESTA VERSÃO EM PORTUGUÊS RESULTOU DO TRABALHO
 DE TEXTO SOBRE A TRADUÇÃO DO ORIGINAL EM
INGLÊS PRODUZIDA PELO TRADUTOR IA DEEPL
Como os Chatbots moldam mentes jovens e como recuperar o controlo

Os sistemas a que chamamos IA generativa (GenAI) não são ferramentas neutras que simplesmente respondem a perguntas. São construídos com base em conjuntos de dados gigantescos e processos de optimização complexos que aprendem a prever palavras, imagens ou sons, enquanto tentam manter os utilizadores envolvidos e satisfeitos. Tal como os algoritmos de recomendação nas redes sociais, são optimizados para amplificar a interacção e a utilidade percebida, muitas vezes sem uma compreensão profunda dos efeitos colaterais psicológicos indesejados, especialmente para os adolescentes. LER MAIS >>>

segunda-feira, 2 de março de 2026

Neutralidade

O que não conheço não me afecta. E o que passa ao largo só conheço se me obrigar ao incómodo de percorrer a distância que me separa dele.


A neutralidade é isto: manter entre nós e o “outro” uma distância que não incomode — “Longe da vista, longe do coração", diz o ditado popular.

E assim muitos de nós se vão posicionando face às atrocidades que se passam no mundo


DL

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Ilustração original disponível em >>>




domingo, 8 de fevereiro de 2026

Da ralação à relação *

No século passado existiu uma polémica bem interessante no campo da Psicologia entre o pensamento de Henri Wallon (1879-1962) e Jean Piaget (1896-1980). Esta polémica não confrontou diretamente estes dois personagens, foi sim alimentada pelos seus seguidores. Falava-se da "incompatibilidade", e até da "oposição", entre as duas linhas de investigação do desenvolvimento humano: Wallon tinha investigado o desenvolvimento emocional e Piaget o nascimento e desenvolvimento das estruturas cognitivas.

Um dia, já essa controvérsia ia avançada, perguntaram a Wallon porque é que a perspetiva dele era incompatível com a de Piaget. Wallon respondeu simplesmente que não havia incompatibilidade nenhuma, porque cada um investigava uma área do desenvolvimento que, sendo diferente, era complementar. E deu o exemplo: podemos ter um carro fantástico, mas se o carro não tiver gasolina, não anda. Neste caso, o carro seria a estrutura cognitiva, as emoções representavam o combustível que fazia andar o carro. Esta metáfora parece ainda hoje muito útil para encararmos a importância das emoções e da relação interpessoal na Educação.

A relação foi muitas vezes mal-entendida: houve tempo em que foi valorizada uma relação asséptica, correta q.b. e uniforme, para não discriminar ninguém. A relação do professor devia ser semelhante à de um funcionário de atendimento público, seguindo um severo código relacional para não beliscar a igualdade, uma relação, em suma, funcional. Outras vezes, concebeu-se a relação pedagógica como um conjunto de truques, de técnicas, que o professor devia dominar para suscitar e manter o interesse e o foco dos alunos na aprendizagem. Podíamos chamar a esta relação uma tecnorelação.

Num tempo em que as tecnologias digitais e a inteligência artificial galgam fronteiras e parecem querer monopolizar em tempo e em impacto a relação de aprendizagem, é importante discutir o que a investigação e a experiência nos ensinam sobre a importância do estabelecimento de uma relação profícua e humana entre professores e alunos.

Antes de mais, devemos conceber a relação como uma atividade humana. Se a relação for humana (como é), tem de ser afetiva. O neurocientista António Damásio faz uma divisão muito clara entre sentimentos e emoções: sinteticamente, os sentimentos são o que a pessoa sente dentro de si; as emoções são o que pessoa exterioriza através de uma linguagem (verbal, corporal, simbólica, etc.). Ora, os afetos têm estas duas componentes: o que nós sentimos e a forma como exteriorizamos aquilo que sentimos.

Os sentimentos e as emoções são a base real da relação entre humanos. Podemos sintetizar uma agenda relacional com base em duas palavras essenciais: carinho e afeto. Carinho entendido como dar valor (de caro), afeição, ternura e apreço. Compreendemos melhor o que é afeto ao ir à sua etimologia: ad facere — fazer algo para ou a alguém. Nestas duas palavras encontramos os valores do sentimento no carinho e a expressão desse sentimento através do afeto.

Sabemos que hoje nas escolas as relações são frequentemente dificultadas por os interlocutores estarem, muitas vezes, cansados, desmotivados, tristes e defensivos. Ambientes em que as relações parecem ser mais a fonte dos problemas do que a possibilidade de os resolver. Encontramos alunos desafiadores, procurando testar os limites do que podem dizer e fazer; encontramos professores exaustos de procurar manter a relação num modelo tradicional de respeito e de silêncio. Talvez hoje, com todas as mudanças pelas quais passa a Educação, se exijam novas bases para a relação pedagógica. E um aspeto parece essencial: quando o conhecimento está distribuído por múltiplas fontes e com múltiplos atores, é uma causa perdida procurar que os alunos aprendam de uma única maneira, assim como é uma causa perdida quando se olha os alunos como puros recetores, sem voz ativa e credível. Precisamos de criar outros ambientes de aprendizagem para que possam fluir relações diferentes. Esperar melhorar relações sem alterar os ambientes de aprendizagem é uma impossibilidade. Devemos pensar numa relação que parte de onde o aluno está e não de onde nós pensávamos que ele devia estar.

Criar e acarinhar ambientes humanos participativos e ativos em que os sentimentos e as emoções possam encontrar tempo e espaço para desabrocharem, é certamente este o grande desafio das relações interpessoais na Educação.

Criar ambientes não de ralação, mas de efetiva relação.

David Rodrigues

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* In Página da Educação, nº 226 (Relação professor aluno a património da humanidade), Porto, Profedições, 2025: p. 26.