Hoje não sei se os jovens terão o ambiente propício a devaneios ou mesmo para entenderem e cultivarem, por si sós, a arte de devanear, fundamental ao desenvolvimento da imaginação! Quando sozinhos, numa situação em que poderiam estar simplesmente a olhar para o ar, sem fazer coisa alguma (a devanear) os dispositivos tecnológicos, que trazem “colados” ao corpo, falam mais alto: parecem pô-los em “stand by”, em estado de prontidão, face às solicitações das redes a que se encontram amarrados. Mesmo os adultos deixaram de se dar tempo a devaneios. Quantos de nós, quando à espera de um amigo, à mesa da esplanada onde ficamos de nos encontrar, conseguimos aguentar a espera sem pegar no smartfone, que trazemos sempre no bolso e que, ao sentarmo-nos, pousamos na mesa, na expectativa sabe-se lá de quê? Ontem, quando não fazíamos nada, devaneávamos. Mas, hoje, até com os adultos, a ligação às redes tende a tomar o lugar do devaneio. É caso para dizer: reaprender e “ensinar” a devanear, precisa-se!
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Claro que escrever não é devaneio! Mas é, certamente, um instrumento que nos pode levar até ele. Então, de caneta na mão, depois de experimentar ler o poema como quem anda nas nuvens (quer dizer, devaneia), escrevemos o que o devaneio nos ditar — outro poema, talvez, que, como qualquer poema, nos convida a devanear —. E depois partilhar no blog da turma (ou nas “redes”, se for esse o desejo do autor) o produto do devaneio. Mas, se a partilha for nas “redes”, só com o apoio de quem ajudou a dar forma ao “castelo feito no ar”, e não deixa que as reações negativas que magoam, ou a ausência de “likes”, venham pôr de rasto auto-estimas, que impedem devaneios futuros. Porque os “likes” que importam vêm daqueles que estão próximos e, olhos nos olhos, nos acompanham nos nossos devaneios.
In Lousada, D., e outros. Escutar a palavra desenhar o texto. Desenhar o texto escutar a palavra, Ágora Gaia, 2026 — versão E-book



