domingo, 8 de fevereiro de 2026

Da ralação à relação *

No século passado existiu uma polémica bem interessante no campo da Psicologia entre o pensamento de Henri Wallon (1879-1962) e Jean Piaget (1896-1980). Esta polémica não confrontou diretamente estes dois personagens, foi sim alimentada pelos seus seguidores. Falava-se da "incompatibilidade", e até da "oposição", entre as duas linhas de investigação do desenvolvimento humano: Wallon tinha investigado o desenvolvimento emocional e Piaget o nascimento e desenvolvimento das estruturas cognitivas.

Um dia, já essa controvérsia ia avançada, perguntaram a Wallon porque é que a perspetiva dele era incompatível com a de Piaget. Wallon respondeu simplesmente que não havia incompatibilidade nenhuma, porque cada um investigava uma área do desenvolvimento que, sendo diferente, era complementar. E deu o exemplo: podemos ter um carro fantástico, mas se o carro não tiver gasolina, não anda. Neste caso, o carro seria a estrutura cognitiva, as emoções representavam o combustível que fazia andar o carro. Esta metáfora parece ainda hoje muito útil para encararmos a importância das emoções e da relação interpessoal na Educação.

A relação foi muitas vezes mal-entendida: houve tempo em que foi valorizada uma relação asséptica, correta q.b. e uniforme, para não discriminar ninguém. A relação do professor devia ser semelhante à de um funcionário de atendimento público, seguindo um severo código relacional para não beliscar a igualdade, uma relação, em suma, funcional. Outras vezes, concebeu-se a relação pedagógica como um conjunto de truques, de técnicas, que o professor devia dominar para suscitar e manter o interesse e o foco dos alunos na aprendizagem. Podíamos chamar a esta relação uma tecnorelação.

Num tempo em que as tecnologias digitais e a inteligência artificial galgam fronteiras e parecem querer monopolizar em tempo e em impacto a relação de aprendizagem, é importante discutir o que a investigação e a experiência nos ensinam sobre a importância do estabelecimento de uma relação profícua e humana entre professores e alunos.

Antes de mais, devemos conceber a relação como uma atividade humana. Se a relação for humana (como é), tem de ser afetiva. O neurocientista António Damásio faz uma divisão muito clara entre sentimentos e emoções: sinteticamente, os sentimentos são o que a pessoa sente dentro de si; as emoções são o que pessoa exterioriza através de uma linguagem (verbal, corporal, simbólica, etc.). Ora, os afetos têm estas duas componentes: o que nós sentimos e a forma como exteriorizamos aquilo que sentimos.

Os sentimentos e as emoções são a base real da relação entre humanos. Podemos sintetizar uma agenda relacional com base em duas palavras essenciais: carinho e afeto. Carinho entendido como dar valor (de caro), afeição, ternura e apreço. Compreendemos melhor o que é afeto ao ir à sua etimologia: ad facere — fazer algo para ou a alguém. Nestas duas palavras encontramos os valores do sentimento no carinho e a expressão desse sentimento através do afeto.

Sabemos que hoje nas escolas as relações são frequentemente dificultadas por os interlocutores estarem, muitas vezes, cansados, desmotivados, tristes e defensivos. Ambientes em que as relações parecem ser mais a fonte dos problemas do que a possibilidade de os resolver. Encontramos alunos desafiadores, procurando testar os limites do que podem dizer e fazer; encontramos professores exaustos de procurar manter a relação num modelo tradicional de respeito e de silêncio. Talvez hoje, com todas as mudanças pelas quais passa a Educação, se exijam novas bases para a relação pedagógica. E um aspeto parece essencial: quando o conhecimento está distribuído por múltiplas fontes e com múltiplos atores, é uma causa perdida procurar que os alunos aprendam de uma única maneira, assim como é uma causa perdida quando se olha os alunos como puros recetores, sem voz ativa e credível. Precisamos de criar outros ambientes de aprendizagem para que possam fluir relações diferentes. Esperar melhorar relações sem alterar os ambientes de aprendizagem é uma impossibilidade. Devemos pensar numa relação que parte de onde o aluno está e não de onde nós pensávamos que ele devia estar.

Criar e acarinhar ambientes humanos participativos e ativos em que os sentimentos e as emoções possam encontrar tempo e espaço para desabrocharem, é certamente este o grande desafio das relações interpessoais na Educação.

Criar ambientes não de ralação, mas de efetiva relação.

David Rodrigues

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* In Página da Educação, nº 226 (Relação professor aluno a património da humanidade), Porto, Profedições, 2025: p. 26.