terça-feira, 3 de novembro de 2026

«Manhã na Praia do Furadouro» e as manifestações pelo direito à habitação

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Ouço, na tv, notícia da carga policial no Porto. Folheio o último livro de Filipa Leal e dou com o poema "Manhã na Praia do Furadouro" e, sem saber porquê, vejo-me a procurar, porque a sinto, a relação do poema com a notícia!

Este pequeno poema de Filipa Leal é um exemplo de como uma pequena alteração pode abrir-nos outros sentidos. A diferença entre "sento-me" e "sinto-me" é mínima, mas a mudança de sentido é enorme. Basta uma vogal para passarmos de uma posição física a uma experiência interior: 

No mar, sento-me sempre
(sinto-me sempre)
na primeira fila. 

Trata-se de um poema que é, talvez, uma forma de dizer que há pessoas que não conseguem viver como espectadores da própria vida: sentam-se na primeira fila, mas aquilo a que assistem acontece, também, dentro delas, e, por isso, escolhem estar na linha da frente; recusam estar à espera do que vier, se vier, qual nêspera "deitada, calada, a esperar o que acontece"[*].

Estar na primeira fila é estar exposto às ondas, à proximidade do perigo, que pode vir de uma qualquer ameaça, como a ameaça de violência de forças que acolhem, acriticamente, ordens de um poder político que quer vergar, à bastonada, quem assume legitimamente o seu direito à resistência. Um perigo que sabemos não controlar, mas que, nem por isso, ou precisamente por isso, nos recusamos a ser controlados por ele.

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[*] Henrique-Leiria, Mário. "Rifão quotidiano", in Novos contos do Gim Tónico, Lisboa, Editorial Estampa, 2010.