quarta-feira, 8 de abril de 2026

«A pedagogia é um desporto de combate»

Apesar de alguns momentos de acalmia mediática em que os seus adversários parecem perder um pouco de fôlego, os pedagogos vivem sempre com a sensação de estar «na linha da frente». E, de facto, estão-no constantemente. Estão-no, acima de tudo, porque têm de recordar incessantemente – e, em primeiro lugar, a si próprios – que ninguém está destinado ao fracasso nem condenado à exclusão, que todos podem aprender e crescer, que a transmissão da cultura não pode ter como objectivo seleccionar as elites, mas deve permitir a todos aceder ao prazer de pensar e ao poder de agir. Contra todas as formas de fatalismo e de renúncia, contra a obsessão classificatória das nossas sociedades, contra o encerramento  sistemático dos indivíduos em «grelhas» por instituições que se contentam em «gerir fluxos», eles são portadores de uma «insurreição fundadora» que os coloca sempre, mais ou menos, em posição de combate contra as práticas burocráticas e rotineiras de quem aposta na manutenção do status quo. LER MAIS >>>

terça-feira, 7 de abril de 2026

Em defesa do regresso do pedagogo do exílio, para onde foi mandado por certos “cientista da educação” *

O pedagogo sabe que existe sempre uma distância, quando não um abismo, entre o que se diz e o que se faz, mas não se resigna a isso, estando sempre em busca de coerência.

Foi o meu colega Jean Houssaye quem desenvolveu, com maior precisão, esta concepção do pedagogo. Para ele, tal como para mim, embora Rousseau seja constantemente invocado pelos pedagogos, ele não é, de forma alguma, um pedagogo. O Émile é uma ficção filosófica muito interessante e cuja leitura é estimulante, e uma espécie de utopia de referência… mas não é, de forma alguma, um texto pedagógico: a acção decorre num mundo imaginário, com uma criança órfã – para não ter de se preocupar com a influência e as imposições dos pais –, sem a menor preocupação material nem a menor restrição social ou institucional. E Rousseau não tentou pôr em prática as suas teorias com os seus filhos – que abandonou, sem dúvida, devido à sua vida de perseguido – nem criar a menor instituição educativa. Tudo o contrário de Pestalozzi, que quis, por sua vez, «dar uma mão a Rousseau» e se empenhou numa infinidade de experiências educativas onde pôde experimentar, de forma muito concreta, as dificuldades da empreitada: ainda muito jovem, acolhe na sua quinta de Neuhof adolescentes que tenta reintegrar através dos trabalhos agrícolas… estes roubam-no e aterrorizam a vizinhança. Ficou arruinado, foi ridicularizado, mas não se desesperou. Pelo contrário, começou a reflectir, a ler e a escrever, a consultar aqueles que o podiam aconselhar. E voltou ao trabalho, até fundar o famoso instituto de Yverdon, que seria um enorme sucesso, reconhecido e elogiado em toda a Europa. E o que temos a aprender com Pestalozzi não é tanto o seu «método» – que ele próprio dizia que deveria ser ultrapassado – mas sim a forma como enfrentou as dificuldades que encontrou, a maneira como construiu as suas propostas, as adaptou, trabalhou e retrabalhou… para alcançar cada vez mais rigor na busca daquilo que considerava o objectivo último da educação: «enobrecer o humano».

Por fim, o pedagogo é, à semelhança de Pestalozzi, alguém que se encontra na junção entre a teoria e a prática. Inventa incessantemente novas propostas para incorporar a sua teoria nas suas práticas. E questiona incessantemente as suas práticas para verificar se estas lhe permitem aproximar-se da sua teoria. «Percorre incessantemente nos dois sentidos, como diz Daniel Hameline, a cadeia que vai dos objetivos às modalidades.» Convencido de que é ao tentar reduzir a distância entre uns e outros que avança, mas consciente de que essa distância permanecerá sempre, tanto é constitutiva da empreitada educativa.

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* Excerto do original "Qu'est-ce que la pédagogie", in Philippe Meirieu et Xavier Bouchereau, Parce que nous croyons encore en l'éducation, Érès Editions, 2026 (Tradução de Daniel Lousada).

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Sem conhecimento não há pedagogia

A pedagogia está mais presente nas crianças pequenas e vai diminuindo com o avanço das idades.  Enquanto a atenção está centrada nos alunos, a pedagogia prevalece; quando se dirige para o conhecimento, desaparece. Estranha realidade.  

A preocupação principal da pedagogia tem de ser com o conhecimento e com a forma como este é apropriado pelos alunos.

Recordo os três vértices do triângulo pedagógico popularizado por Jean Houssaye: conhecimento — professor — alunos. Há sempre um dos vértices que ocupa o «lugar do morto». Assim: na lógica aprender, há uma relação prioritária entre o conhecimento e os alunos com o professor no «lugar do morto»; na lógica ensinar, esta relação é sobretudo entre o professor e o conhecimento, com os alunos numa atitude mais passiva; na lógica formar, a relação estabelece-se primordialmente entre o professor e os alunos, com uma presença menor do conhecimento.

Já escrevi , em diversas ocasiões, sobre este triângulo e os seus prolongamentos. Agora, interessa-me sublinhar que a pedagogia só existe quando é capaz de juntar estes três vértices. Não é, apenas, uma relação entre professor e alunos. Sem conhecimento não há pedagogia.


António Nóvoa, excerto de "A colaboração é o normal", in «Viagem. Por escolas de Portugal», Porto Editora, 2026, pp. 19-23