Com a criação dos agrupamentos verticais de escolas, o 1º Ciclo, já neste século, viu-se obrigado a adoptar o modelo de sumários do ensino por disciplinas, em nome da uniformização dos processos administrativos, impostos por uma administração incapaz de tratar de forma diferenciada o que é diferente. O 1º Ciclo não tem nem precisa de livro de sumários? Mas passa a ter, precise ou não! E a coisa complicou-se. Já não bastava planear e avaliar o plano. Era preciso distribuir os conteúdos trabalhados, pelas quadrículas reservadas a cada uma das disciplinas no livro de ponto/sumários, até então, apenas em uso nos outros níveis de ensino. Entretanto chega o reinado de Maria de Lurdes Rodrigues, de má memória, e acelera-se a hecatombe que nos trouxe aqui.* Victor de Lemos é o Secretário de Estado que dá a cara às famosas oito horas obrigatórias para português e matemática. Esta equipa ministerial não sabia, ou não quis saber, que o tratamento dos conteúdos da língua portuguesa estava presente em todas as áreas do currículo, e a matemática, embora de uma forma menos evidente, também. Daqui à imposição de um currículo partido às fatias, numa agenda fixa semanal, à semelhança dos outros graus de ensino, com a ajuda de uma direcção da escola acéfala, foi um passo. Claro que não é um livro de ponto/sumários que, por si só, consegue esta proeza, mas o que ele traz do modelo de ensino onde é tradição, que inquina o trabalho dos professores do 1° Ciclo, incapazes de se opor a ele. E silenciosamente primeiro e depois à descarada temos o 1° Ciclo colonizado pelos ciclos e níveis de ensino subsequentes.
Não tenho dotes que me permitam adivinhar o futuro. Mas acho (e isto sou eu apenas a achar) que, a manter-se esta trajectória, com a confusão daqueles que vêem pluridocência e disciplinarização como sinónimos, a marcar a agenda, a implosão do regime de monodocência parece ser uma questão de tempo.
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* Contrariamente às expectativas de Sérgio Niza: «(…) é com entusiasmo e esperança que se recebe o anúncio de que o governo teria decidido que os alunos até ao 6° ano iriam ter um único professor a leccionar as áreas básicas e se introduziria a figura do “professor-tutor”» (in «A balcanização do 1° ciclo». Jornal de Letras — «Educação: Inquietações Pedagógicas» (pp. 4-5). Publicado no período de 14 a 27 de Fevereiro de 2007).

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