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domingo, 25 de janeiro de 2026

Abrir o poema e sair dele sem o fechar

Neste poema de Luísa Freire, dou conta da leitura que a poesia nos pede. É a leitura que precisamos ensinar a fazer, para que o poema, mesmo que fechado na resposta certa que os testes e os exames impõem, se abra continuamente a respostas então não pensadas.

Não é só a poesia que gosta de portas abertas. Qualquer texto que vai além do registo do acontecimento aspira a uma atitude igual dos seus leitores.

Daniel Lousada

"RETRETES"

FOLHEIO O LIVRO "Antes que o rio seque", de A. M. Pires Cabral, e páro neste poema.

Vem-me à memória o episódio que o meu pai contava*, passado com um casal de velhos que dormitava, noite dentro, numa viagem de comboio. Num apeadeiro no meio do nada, o comboio pára com dois ou três solavancos. O velho acorda e pergunta: "Onde estamos"? E a velha estremunhada ainda, olha através do vidro da janela meio embaciado e responde: "Retretes".

Fica por saber se o velho se conformou com a resposta.

A poesia, mais do que qualquer outro texto, tem destas coisas: o poder de convocar memórias e, ao convocá-las, revela-nos sentidos a partir das impressões que nos habitam.

Daniel Lousada

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* Não sei se episódio real ou se inventado, se bem que, ao tempo, o ouvisse como real.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Um poema que não é de Natal... Mas ficou a ser

Com dois versos acrescentados no fim, este poema passou a ser poema de Natal.


Com tantos poemas de Natal, que circulam por aí, porquê e para quê isto? Primeiro porque sim. E depois, porque sim também! Não anda por aí a expressão, «Natal é quando um homem quiser», popularizada num verso Carlos Ary dos Santos? Então, um poema é de Natal, sempre que o leitor quer!

sábado, 20 de dezembro de 2025

Natal de quê? De quem?

Encontro-me hoje com “Natal de 1971” de Jorge de Sena. Cinquenta e quatro Natais passados, e tanta coisa passada entretanto! E interrogo-me: que distingue o Natal de 1971 do Natal que agora bate à porta? Não sei!

Fosse Jorge de Sena ainda vivo, como seria o seu “Natal de 2025”, se estivesse na disposição de escrevê-lo? Seria outro o seu poema? Ou limitar-se-ia a trocar 1971 por 2025, mantendo o poema em tudo igual?

Vou ao Sr. Google perguntar pelo estado do mundo em 1971. O seu assistente IA atira-me com a guerra Indo-Paquistanesa, a Guerra do Vietname, os conflitos na Irlanda do Norte, a que se juntam outros conflitos menores. 

Entre nós, as Guerras Coloniais (ou ultramarinas, como se dizia por cá) estavam no seu ponto crítico. E um povo, entre a mordaça e a anestesia, (sobre)vivia num país orgulhosamente só.

Será de mim? Ou…, mordaças à parte, não estaremos a entrar numa anestesia idêntica?

Daniel Lousada

sábado, 29 de novembro de 2025

«Dieta da Poesia» — excerto

Neste texto, inserido no livro “Dieta da poesia”, Afonso Cruz explora aquela ideia de que a forma mais fácil de nos libertarmos de um vício, que nos prejudica, é trocá-lo por outro que seja inócuo, seguindo a receita da expressão popular “sempre que tiveres vontade de… bebe um copo de água”. De uma forma divertida, apresenta, através da voz de Bazulague, personagem do seu livro, uma receita para emagrecer ou engordar com óptimos resultados, como atesta o comentário de um dos muitos que aderiram a este método dietético: «A poesia tem consequências também noutras áreas. O senhor Almeida, de Lustosa e Barrosas, tornou-se um pintor famoso. Ao ler um verso de Mário Quintana, que dizia "Pior que ainda ninguém se lembrou de pintar uma mulher nua de óculos?", começou a pintar mulheres nuas de óculos, tendo criado um estilo com milhares de seguidores». 

«No caso de pretender perder peso, a dieta promete um emagrecimento de três a cinco quilos por mês (...). Qualquer pessoa que siga esta dieta ficará, como comprovam todos os estudos, muito mais bonito e atraente. Caso queira ser gordo ou ainda mais gordo, o processo é igual, só não tem de substituir comida por poesia, terá, isso sim, de ler enquanto come. Quanto mais gostar de poemas, mais pesado ficará».

terça-feira, 18 de novembro de 2025

“Guardar” — uma proposta de trabalho de texto

PROPOSTA DISPONÍVEL EM "HOJE VAMOS LER" >>>
"Guardar", poema que apresentamos aqui em duas versões (duas formas de o dizer: uma em português de Portugal e outra em português do Brasil), além de dar nome ao poema, é título do primeiro livro de poesia de António Cícero, que teve a sua primeira edição publicada no Rio de Janeiro, em 1996. E é a partir dele que apresentamos esta proposta de trabalho de texto [VER >>]

É uma proposta dirigida a crianças do 1º Ciclo, 4º Ano de escolaridade!

Muitos dirão, talvez, que não passa pela cabeça de ninguém dar a ler um poema como este a crianças de nove anos, que não faz parte das Metas Curriculares do 4º ano de escolaridade, nem consta que António Cícero faça parte do Plano Nacional de Leitura para esta idade. Está visto que passou pela nossa cabeça (professores do 1.º ciclo) que, na escolha dos textos a ler com os alunos, tem como primeiro critério o professor gostar. Se o professor não gosta como é que vai "ensinar a gostar"? Para nós, no 1º Ciclo, é critério sagrado. Claro que não é escolher um livro, um texto, um poema ..., e dizer toma lá, agora lê: é preciso trazer a leitura para a aula, trazer a voz que melhor serve o texto, capaz de entusiasmar quem ouve, e que só o professor é capaz de trazer, não as perguntas a pedir respostas certas! As perguntas que importam são aquelas que fazemos ao texto como leitores, implicados na leitura do poema (neste caso) com prazer. E o poema pode então virar assunto de conversa; conversas iguaizinhas àquelas que temos com colegas e amigos sobre os livros que nos deram prazer ler.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

"Não" é fácil

Um poema de A. M. Pires Cabral para a época festiva que se aproxima, e que nos centros comerciais e um pouco por toda a parte já se anuncia. 

Não, não é um poema de Natal, mas poderia ser: formulação de um desejo, aqui subentendido, como qualquer desejo que se pede ao "Pai Natal", em jeito de protesto, de denúncia talvez, num poema. 

Substituindo o título, “Não é fácil” por “Prece em dia de Natal, e não haveria dúvida nenhuma: teríamos um poema para a quadra festiva que se apróxima.



quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Ora (direis) ouvir estrelas!

OUVIR >>>

Um poema de Olavo Bilac para discutir se devemos ou não aceitar as indicações de leitura, que a forma e pontuação do poema sugerem, através do ensaio de leituras que ora respeitam ora desrespeitam as indicações sugeridas.

(...)

Trata-se, no dizer de António Fonseca de aprender a reescrever a "falação do poema", reescrever-lo na fala «que é um sítio muito mais antigo de comunicação do que a escrita.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

domingo, 17 de agosto de 2025

Os sentidos que o poema nos traz e o exemplo da pintura.

ÚLTIMA ACTUALIZAÇÃO: 25.08.2025

NOTA PRÉVIA

Sendo um daqueles textos que buscam a construção de uma prática (uma didáctica impossível, como qualquer didáctica — a didáctica que é a negação mesma da didáctica, na expressão de Sérgio Niza), este texto estará sempre aberto a revisões, até no título. Não será nunca um texto acabado. Pode até ser revisto com os contributos de comentários.

*

Olho os quadros de um determinado pintor (modernista) e não entendo o que vejo. Onde é que ele quis chegar com isto? — interrogo-me. Mas não me dou ao trabalho de procurar saber. Não há nada neles que me peça esse esforço [Não há neles qualquer promessa de sentido). Espanta-me apenas o valor que lhes é atribuído. Se me dissessem que poderia escolher para mim um dos seus quadros, primeiro perguntava: Qual é o mais valioso? — Em termos monetários, claro.

Olho os quadros de um outro pintor (também modernista) e também não entendo. Mas aqui não me assalta a pergunta. Não me faz falta entender os seus traços. Basta-me olhar. Não me importava de ter um na parede da minha sala, frente ao sofá, para estar ali sentado só a olhar. O poema Cabeça no ar de Manuel António Pina >>> (um poema para crianças, diz-se) dá conta deste estado, um estado que é convidado a experimentar quem é atingido por um objecto de arte: «os olhos a olhar (embora sem ver)… e ficar quietinho a ser». 

Com muitos poemas de que gosto passa-se algo do género, se bem que não inteiramente: uma pintura entra-me por inteiro olhos adentro, mas o poema entra à medida que o tacteio com a voz, que para George Jean tem de ser "voz alta", mesmo que ouvida em silêncio. E é da "qualidade" desta voz que lhe consigo emprestar (ou de quem o lê para mim) e lhe dá forma, que depende a minha adesão ao poema: A voz que faz frente ao sentido, como diz Julien Craeq [1]. Mas o poema para me fazer gostar, ou encontra-se com a minha voz às primeiras leituras ou então desisto [2] — ou não fosse a poesia «pesquisa de som perseguindo sentidos» [3]. Encontrando-se, o sentido resiste, claro. No poema resiste sempre. É sentido pressentido, promessa de sentido que faz voltar ao poema uma e outra vez: o que é que ele me diz que eu possa dizer sobre ele?

Levo para a aula A porta — um poema de Daniel Faria >>>. Digo que é um poema de que gosto muito, mas não sei dizer porquê [4] — Há tantas coisas de que gostamos, e na hora de dizer porquê não encontramos palavras para dizê-lo, apenas nos ocorre dizer porque sim! [5] —. E convido as crianças a emprestar-lhes a voz antes de o ouvirem na minha. Não é uma tarefa fácil para uma criança de nove anos. Mas não era a primeira vez que eram desafiadas a emprestar a voz a um poema. E sabiam que quando eu lhes dava a ler (para serem capazes de o dizer) um poema de que gostava muito, ele revelava-se por inteiro na voz — Não sei se era do poema que gostavam ou se da voz que o revelava e os prendia. Não raras vezes, depois de lhes ler um poema, terminava com duas perguntas (retóricas) em jeito de exclamação: Não entenderam nada, pois não? Mas é lindo, não é?! Sabiam que quando entrávamos no mundo da poesia, era na busca do prazer que nos envolvíamos. Tudo o mais era secundário. Podiam correr o risco de não entender. Não entender, nesta idade não é risco. É uma possibilidade... sem riscos. Porque, quando o fim que nos une é aprender a gostar, não faz falta perguntar: «Onde é que ele quis chegar com isto?» Quando muito fica no ar a pergunta: «O que há aqui que me faz gostar tanto disto?» Aqui dou-me conta de que não será por acaso, talvez, que muitos poemas se apresentem sem título. E o mesmo pode ser dito relativamente às diversas formas de expressão artística.

Ouço António Carlos Cortez, professor e poeta, interrogar-se, «como é possível que os alunos entendam a poesia de Sophia de Mello Breyner, sem antes lerem um ensaio relativamente simples sobre a sua obra?» [6] E dou-me conta da sorte que tive de não ter de ensinar literatura. Como disse, pude dizer aos meus alunos: «tenho um poema, de que gosto muito, para vos apresentar, mas não sei porquê!» Não sei se um professor do Ensino Secundário sente a liberdade de dizer algo assim. Como pode? Ensina literatura, gosta dum poema e não sabe porquê? E no entanto é esta liberdade de dizer não sei, que lhe dá a possibilidade de partir com os seus alunos para a leitura de um poema, unicamente atentos aos sentidos pressentidos, e à promessa de sentidos a conquistar. Tal como com um quadro que impressiona, perante o qual só conseguimos exclamar: uau! Depois, claro, pode vir o ensaio, que nos ajuda a desvendar os segredos que esconde e nos faz gostar mais ainda. Mas só depois. «Sou extremamente naif, espontâneo, uma obra de arte ou me atinge ou não me atinge — diz José Gil —. Se sou atingido posso perguntar: porquê? E então começo a raciocinar» [7]. Delfim Santos, por sua vez, numa carta a Jorge de Sena, diz: «Há transparência e opacidade na poesia. Hoje visitou-me a opacidade» [8].

Acho que é necessário repensar o percurso do 1º Ciclo à Universidade, de forma a que o aprender a gostar esteja sempre presente no horizonte. Porque não é possível fazer o aluno gostar da poesia de Sophia se der com ela apenas à entrada do Secundário, numa relação obrigatoriamente mediada por ensaios. A sua poesia é de leitura obrigatória neste nível de ensino? Porque não fazê-la entrar, devagarinho, no ouvido, pela voz do professor, das vozes de quem domina a sua partitura >>>, logo a partir dos primeiros anos de escolaridade, naquele tempo em que o que importa é, no dizer de António José Saraiva, «a língua sonora que percorre os vários graus da escala»? Ou quem diz Sophia da Mello Breyner diz Mário de Sá-Carneiro >>>, ou…

Dê Éle

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[1] Cit. por Georges Jean, A leitura em voz alta, Instituto Piaget, Lisboa, 2000: p. 135. — Por isso é que ouvir o poema na sua melhor voz, ajuda a aceder aos seus sentidos. 

[2] Há muitos poemas de poetas que aprecio, que abandonei logo na entrada dos primeiros versos. Não havia uma voz a impressionar-me o ouvido. Depois ouço-os na voz de quem sabe dar-lhe a voz que melhor o serve (no caso, um actor) e tudo se altera. «(...) há no poema uma oralidade viva, um sabor da palavra gostosa (...). É para ser entoado por recitadores, e não analisado por gramáticos — diz António José Saraiva —. Por vezes interessa pouco o que ele diz, e vale só a língua sonora que percorre os vários graus da escala, uma palavra que esplende, um som rouco de queixa ou um gesto teatral que se entrevê» (Citado por António Fonseca, em Os Lusíadas como nunca os ouviu, Caleidoscópio - Edição e Artes Gráficas, S.A., Casal de Cambra, 2016). Por isso uma leitura acompanhada pela voz de quem reconhece muito bem a sua partitura ajuda muito à adesão ao texto.

[3] António Carlos Cortez, Tempo exacto: antologia pessoal, Jaguatirica, Rio de Janeiro, 2015 (versão digital).

[4] Não sei mesmo porquê. É algo que acontece com os poemas de que gosto (até na prosa): não sei ainda, porque não encontrei, o que dizer sobre ele. Como ficou dito atrás, são os sentidos não revelados, apenas pressentidos, que nos faz voltar ao poema, ao texto, uma e outra vez: dir-se-á, enquanto a promessa de sentido estiver presente.

[5] Não sei se Neruda mesmo, ou se a personagem que o representa em O carteiro de Pablo Neruda, quando interpelado sobre o significado de um dos seus versos, diz: «(...) não sei dizer com palavras diferentes das que usei. Quando se explica a poesia torna-se banal. Melhor que qualquer explicação é a experiência de sentimentos que a poesia pode revelar, e uma alma suficientemente aberta para entendê-la». 

[6]  Programa Prova Oral, da Antena 3 VER >>>

[7] José Gil, A última lição, Contraponto, Lisboa, 2025: p. 209 — «Por exemplo — diz José Gil — quando vejo pendurada uma pá, um ready-made do Duchamp, para mim é uma pá. (...) Mas há pessoas que dizem: "que maravilhosa pá!"».

[8] Jorge de Sena, Delfim Santos e Manuela de Sousa Marques. Correspondência 1943-1959, Guerra & Paz, Lisboa, 2012: p. 68-69.

terça-feira, 3 de junho de 2025

Preâmbulo sobre a formação do Professor

Julgo que os professores portugueses não pressentem, em regra, a importância do que supera e condiciona a didática. Ficam-se na preocupação do como devem ensinar. Não meditam bastante no em que consiste essencialmente o trabalho educativo — influxo duma personalidade sobre outras personalidades em formação. Não começam, por isso, por se educar a si mesmos — e não prolongam essa auto-educação pela vida inteira.

Não tratam de tentar criar uma cultura viva, na medida em que seria necessário fazê-lo. Aprendem a ensinar, e dizem que isso lhes basta. Ora assim não chegam a ser bons professores (porque não vivem e não transmitem as ideias como coisa sua, perfeitamente assimilada e recriada), quanto mais educadores! O verdadeiro educador procura, antes de mais nada, o enriquecimento e o aperfeiçoamento da sua alma ao contacto com a vida, mas de forma que a experiência das coisas não lhe tire a pureza da visão e a jovialidade espiritual.  CONTINUAR A LER >>>

sábado, 3 de maio de 2025

A gente lê tudo seguido, não quer saber do verso para nada

Algumas notas sobre a relação da forma com o conteúdo do poema

Daniel Lousada

"A gente lê tudo seguido, não quer saber do verso para nada!", desabafa uma criança, quando desafiada a procurar a voz a dar ao poema "Sem data", de Nuno Júdice. E daqui a pergunta:

Qual a responsabilidade do verso, na escolha da voz (do seu ritmo feito sobretudo de pausas e respirações) com a qual procuramos o sentido do poema? E como passar tudo isto aos alunos? LER MAIS >>>